quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não me faça rir, dói muito


- Vou ficar quieto. Nao te incomodarei com minhas baboseiras hoje.
- Não? Que pena, agora que eu começava a me divertir. imagino que voce tenha uns 15 anos.
- tenho exatamente 3 vezes 15. E você?
- ...
- Sabe que já sonhei algumas vezes com você? Não se preocupe, nada erótico.
- Que pena.
- Não me faça rir, dói muito. Com o que você sonha, Cora?
- ...
- Sabe que no Japão... Inventaram uma espécie de... Travesseiro cibernético, usado para programar seus sonhos? Você diz à máquina com o que quer sonhar. Por exemplo: Eu quero sonhar sobre... Sean Connery vestido de escocês, e quero estar no pólo norte, pra me esconder na saia dele... Ou algo assim... E funciona. Esta noite... você sonharia com o pólo norte e sean Connery com uma saia escocesa. Com o que você iria querer sonhar, Cora? - ...
- Comigo... sem saia escocesa? Sem nada. Numa ilha tropical. Numa rede enorme. Com espaço para nós dois... Está me ouvindo?
- Sim.
- Nossos corpos abraçados, muito perto um do outro. Nosso suor se misturando. Sem que nada importe. Somente você e eu, Cora. Você e eu... Está olhando pra mim, Cora?
- Não.
- Tem certeza? Acho que estava. Já está mentindo pra mim. Está começando a gostar um pouco de mim.

Josef & Hanna, "A Vida Secreta das Palavras" (2005).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sempre gostei de garotas de uniforme


- Olá. Então é isso o que faz para não pensar? Parece divertido...
- Sim. Muito divertido.
- Eu vim para...
- Se veio para a degustação de sushi, começa mais tarde.
- Não... Depois de três anos aqui, ainda não consegui me acostumar com sushi no café da manhã...
- Nem a fazer ruído comendo ramen.
- Nem a fazer ruído comendo ramen.
- Por que veio aqui?
- Não quer se trocar?
- Não gosta do meu uniforme?
- Sim. Sempre gostei de garotas de uniforme. Enfermeiras, policiais... Funcionárias do mercado de peixe...
- Você veio me dizer adeus?
- Não. Bem... Sim. Eu vim me despedir e te agradecer.
- Não tem que me agradecer por nada.
- Sim, tenho que te agradecer. Sem você, eu... Não sei o que teria feito.
- Não tem que me agradecer. Fomos algumas vezes a um motel, me fez provar vinhos interessantes, tomamos ramen, trepamos porque sentia saudade de sua namorada. Isso é tudo.
- De qualquer forma, eu teria gostado... Não sei... de te conhecer em outro momento da minha vida. Teria sido ótimo. Eu gosto de você e percebo que não sei nada a seu respeito.
- É melhor assim. Se me conhecesse, não iria gostar de mim.
- Não acho isso... Não acho isso... Não acho isso.
- Diga meu nome.
- Ryu.
- Diga mais vezes.
- Ryu... Ryu... Ryu...

David & Ryu, "Mapa dos sons de Tóquio" (2009).

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A corrente do ódio está rompida.


Meus amores... Onde começa a sua história? No seu nascimento? Então começa no horror. No nascimento de seu pai? Então começa como uma grande história de amor. Eu digo que a história de vocês começa com uma promessa, uma que rompe a corrente do ódio. Graças a vocês, finalmente hoje consegui cumpri-la. A corrente do ódio está rompida. E finalmente, tenho tempo de embalá-los, cantar suavemente uma canção. Nada é mais belo do que estar juntos. Eu amo vocês. Sua mãe, Nawal.

Nawal, "Incêndios" (2010).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Quando a gente usa speed...


- Mamãe... Desculpe te acordar, mamãe querida.
- O que aconteceu?
- Mamãe...
- Teve um acidente?
- Estou tão contente por voltar a te ver. Temos que conversar! Temos que conversar! Temos que conversar. Quero que falemos.
- Falar de quê?
- Ia no metrô e de repente percebi... Viajávamos e eu me dizia que se a visse em minha frente... Gostaria de te dizer tudo o que preciso te dizer... E que nunca te disse porque não sou um falador... Sabe que dificilmente me aborreço com quem se pode falar facilmente... Mas então lembrei todas as coisas que queria te dizer... Te dizer uma atrás da outra, precisaria de 100 anos. 100 anos para te dizer tudo o que quero te dizer! E quando estava no metrô eu pensava. Pensava em você com todos os graffitis e cores...
- Era sujo.
- Era maravilhoso. Era incrivelmente maravilhoso! E olhava e dizia a mim mesmo: "Temos que conversar. Obrigatoriamente temos que conversar". Porque, às vezes, ouço você dizer: "Já não conversamos como antes". Mas eu penso isso também. Concordo. E então... Então eu pensava: se eu não disser agora... Se não disser agora... Vou ficar remoendo isso no meu caixão! Se não conversarmos, levaremos tudo para o caixão... com uma vozinha dizendo: "Devia ter-lhe dito! Maldita seja... Não disse?! não disse?! não disse?! não disse?! não disse?!" Podia ter-lhe dito... Ok?
- O que está acontecendo? Por acaso... Você se drogou? Se drogou no colégio interno? Meu Deus.
- Não é assim tão grave! Não é assim tão grave! O importante... O importante... É que estamos juntos. Agora. Entende? É isso que conta. O resto não importa.
- Ok.
- Está bem.
- Beba um copo de leite.
- Estou bem.
- Está molhado.
- Estou bem. Tudo está bem. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
- Eu também te amo. Também te amo muito, mas vai dormir agora. Beba um copo de leite, que desintoxica. Você ri...
- Porque estou contente.
- Também estou contente. Agora vai dormir porque está ficando tarde. Beba leite.

Hubert & Chantale, "Eu Matei Minha Mãe" (2009).

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Proteções


- Hora de dormir, gatinha.
- Ah! não! Só mais um pouco!
- Mas não por muito tempo.
- Mamãe, eu tenho uma pergunta.
- O quê, querida?
- Quando você e titia eram pequenas, vocês ficavam muito tempo juntas?
- Sim, muito.
- Mas a tia Juliette é mais velha que você. Então ela lhe protegia?
- Sim, contra tudo.
- E porque ela parou?
- Porque eu já não era mais uma menininha. Agora, durma.
- Sempre precisamos de quem nos proteja, não é? Mesmo grandes?
- É para isso que o papai está aí. Vamos dormir agora.
- Sabe mamãe, eu amo muito a tia Juliette.
- Eu também, meu anjo.
- É uma pena ela não ter filhos.
- Por que está dizendo isso?
- Porque eu teria muitos primos.
- Durma.

Léa & Petit Lys, "Há Tanto Tempo que te Amo" (2008).

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Uma outra forma de amar


- Não diz nada, senhorita? Não gostou da minha pintura?
- Você já esteve apaixonada?
- Essas coisas são pessoais.
- Por favor...
- Não vai contar a ninguém? Uma vez, há muito tempo, eu me apaixonei. Ele se chamava Cyril. Um oficial. Ele me cortejou... Ficamos noivos, e, então, um dia, ele desapareceu.
- Você nunca tentou encontrá-lo?
- Fazer uma pintura, senhorita... é uma outra forma de amar. Frequentemente, eu o vejo dentro de mim, ou através de outros rostos. E eu me digo que, se eu ainda penso nele, talvez ele ainda pense em mim.
- Posso tirar uma foto sua?
- Sim.
- Olhe para mim.
- Não, eu preciso elevar meus olhos. Minha inspiração vem do alto.

Séraphine & Anne-Marie, "Séraphine" (2008).

domingo, 16 de janeiro de 2011

Você deveria pôr um anúncio no jornal


- Alguma notícia de seu irmão?
- Recebi um cartão ontem. De Le Mans.
- Ele está por aí.
- É. Não sei o que ele está fazendo.
- Ele não disse?
- Ele fala que arruma uns "bicos", às vezes ele toca em bares. Ele toca violão e canta muito bem. Ele fica alguns dias, às vezes uma semana. De Rennes, ele me escreveu duas vezes. Então pega suas coisas e vai embora. Ele não quer me ver.
- Perto da casa de meus avós, tinha um carinha que sumiu um dia, e ninguém sabia por quê. Não dava notícias durante anos. Nem uma carta sequer. Então um dia, os pais dele estavam cerca de 300 quilômetros de casa, e o viram, deitado na calçada, mendigando com um cachorro.
- Por que está me contando?
- Não sei. Para mostrar que ninguém sabe o que se passa na cabeça dos outros. Talvez ele conheceu alguém e... Você deveria pôr um anúncio no jornal. Peça o número de telefone dele ou endereço.
- Ele não quer me ver. Eu queria dizer... Quando você foi ao hospital... achei demais. E o livro também.
- É bom, huh?
- O final é ruim, mas o livro é bom.
- Final feliz uma vez, ruim em outra, assim é a vida.

Thomas & Lili, "Não se Preocupe, Estou Bem" (2006).