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terça-feira, 18 de outubro de 2011

O que resta?


- Vai mesmo embora amanhã?
- Acho que sim.
- Sentirei sua falta.
- E nós mal nos conhecemos...
- "Você não sabe o que você é
Tens sonhado por toda a sua vida,
Teus olhos têm se mantido fechados
A maior parte do tempo.
O que quer que tenha feito
Retorna em forma de escárnios.
Os escárnios não te representam.
Por baixo deles e dentro deles
Vejo você à espreita."
- Quem é esse?
- Walt Whitman.
- Acho que nunca imaginei que uma mulher que pescou um bagre de 20 quilos me recitaria uma poesia.
- É exatamente assim que ele deve ser recitado. Escrito sem rima, ou métrica, versos livres... O que fosse que ele sentia por dentro saía fluindo em seu ritmo intrincado. Paixão pura e desavergonhada. Sem restrições definidas...
- Desculpe, tenho alguns problemas com isso.
- Por quê?
- Porque alguns sugerem que até poesia tem regras.
- Ou você faz suas próprias regras...
- Exatamente isso. É essa a parte que não acredito.
- Por quê?
- Porque se todos vão por aí, criando suas próprias regras, como pode... saber qual é a verdadeira? Não há nada em que se apoiar...
- "Uma noite
Dividi minha pele de cigarra
Devorei suas folhas
Sem conhecer venenos
Nenhuma regra de nutrição
Naquela cegueira dissimulada
Uma desejo finalmente verdadeiro."
- Quem é esse?
- Sou eu.
- Talvez o que seja verdade esteja à nossa frente... e nos afastamos sem saber que está lá. Uma vez que ache que tem tudo resolvido... O que resta?

Janet & Billy, "Leaves of Grass" (2009).

sábado, 11 de junho de 2011

Monstros não existem


- Como vai?
- Tudo bem.
- Não se assustou, não é? Não há monstros no armário, há? Detesto monstros.
- Monstros não existem.
- Então, ótimo.
- Ouvi um barulho.
- De caminhão?
- De bala.
- Estranho. Porque nós saímos daquele bairro violento. E não há muitas armas por aqui.
- As balas vão longe?
- Bem longe. Geralmente, penetram em algum lugar e param.
- E se não pararem?
- Está pensando na bala que passou pela sua janela? Quer que nos mudemos de novo?
- Gosto daqui.
- Eu também. Mas se aquela bala descobrir onde estamos... Espere aí.
- O que foi?
- Que idiota! Como pude esquecer?
- O quê?
- Esqueça. Você não vai acreditar.
- Conte.
- Está bem. Quando eu tinha 5 anos... uma fada veio ao meu quarto numa noite.
- Até parece!
- Falei que não ia acreditar. Vá dormir.
- Não, conte.
- A fada entrou no meu quarto... e eu disse: "Até parece que você é uma fada". E fiquei falando. Ela voou pelo quarto, derrubando meus pôsteres e outras coisas.
- Ela voou?
- Tinha asas curtas e grossas. Pareciam coladas. Não acreditei que era uma fada. Então, ela disse: "Vou provar". Ela enfiou a mão na mochila e puxou uma capa invisível. Amarrou ao redor do meu pescoço e disse que era impenetrável. Sabe o que significa impenetrável? Que nada pode passar por ela. Nenhuma bala. Nada. Ela disse que, se eu a vestisse, nada poderia me fazer mal. Então, eu vesti. E nunca fui baleado nem esfaqueado na vida. Nada disso. Parece estranho? Só que ela me disse
para dar à minha filha... quando fizesse 5 anos, e esqueci.
- Posso tocar nela?
- Claro, toque.
- Não estou sentindo.
- É muito legal, não?
- Se quiser, amarro em volta dos seus ombros. Ela me ensinou... A menos que você ache bobagem.
- Não precisa dela?
- Não, não preciso mais.
- E então, você quer? Ok, agora vou tirar você daqui. Levante a cabeça. Está apertado demais? Sente algo? Ótimo. É como tem de ser.
- Tiro para tomar banho?
- Não, fique com ela o tempo todo. Até ter uma filha e ela fazer 5 anos. Aí, você dá para ela. Combinado?
- Combinado.
- Boa noite, meu bem.
- Boa noite.

Daniel & Lara, "Crash - No Limite" (2004).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sempre gostei de garotas de uniforme


- Olá. Então é isso o que faz para não pensar? Parece divertido...
- Sim. Muito divertido.
- Eu vim para...
- Se veio para a degustação de sushi, começa mais tarde.
- Não... Depois de três anos aqui, ainda não consegui me acostumar com sushi no café da manhã...
- Nem a fazer ruído comendo ramen.
- Nem a fazer ruído comendo ramen.
- Por que veio aqui?
- Não quer se trocar?
- Não gosta do meu uniforme?
- Sim. Sempre gostei de garotas de uniforme. Enfermeiras, policiais... Funcionárias do mercado de peixe...
- Você veio me dizer adeus?
- Não. Bem... Sim. Eu vim me despedir e te agradecer.
- Não tem que me agradecer por nada.
- Sim, tenho que te agradecer. Sem você, eu... Não sei o que teria feito.
- Não tem que me agradecer. Fomos algumas vezes a um motel, me fez provar vinhos interessantes, tomamos ramen, trepamos porque sentia saudade de sua namorada. Isso é tudo.
- De qualquer forma, eu teria gostado... Não sei... de te conhecer em outro momento da minha vida. Teria sido ótimo. Eu gosto de você e percebo que não sei nada a seu respeito.
- É melhor assim. Se me conhecesse, não iria gostar de mim.
- Não acho isso... Não acho isso... Não acho isso.
- Diga meu nome.
- Ryu.
- Diga mais vezes.
- Ryu... Ryu... Ryu...

David & Ryu, "Mapa dos sons de Tóquio" (2009).

sábado, 15 de janeiro de 2011

Porque eramos diferentes


- O sujeito que traz as coisas pra mim achou que fosse meu marido.
- Não conhecia Louis?
- Não. De qualquer forma não se parece com ele.
- É normal.
- Por quê?
- Porque eramos diferentes. Não sei se realmente gostava dele. Quando penso nele, sempre ouço gritos, insultos... Não sei o que lhe fizeram. Se realmente sofria, se tinha razão para guardar rancor, mas... eu guardava dele por ter feito minha mãe chorar. É estranho, no dia do enterro meu pai estava consternado. Enquanto ela... chorava. Cheguei a pensar que talvez tivesse ganhado a guerra. Que finalmente estava vingada. Que nunca mais a faria chorar novamente.
- Gostaria de vir comigo à praia mais tarde?
- Sim, claro.

Mousse & Paul, "O Refúgio" (2009).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O menino sem nome e a garota sem pernas


Naquela cidade cada um sonhava em segredo. O menino sem nome conheceu a garota sem pernas. Ela não tinha pernas, mas mesmo assim não precisava de ninguém para ir embora. E eles tentaram. A garota sem pernas mostrou a ele o mundo como conhecia. Ele, que não tinha nome, embarcou… Como quem nunca mais quer voltar. Por um tempo, olharam para a mesma direção. Ela nunca lhe deu um nome… Ele nunca lhe trouxe as pernas. O que pra um era sina para outro era mistério. Eles poderiam andar juntos sobre o mesmo trilho, mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem.

..., "Os famosos e os duendes da morte" (2009).

domingo, 21 de novembro de 2010

Quem diabos é você?


- Eu vou te encontrar. Vou te localizar!
- Como se você soubesse algo sobre mim.
- Uma garota de Calabessa que o pai ensina na UCW não é difícil de encontrar.
- Você acreditou naquilo tudo?
- Quem é você?
- É difícil dizer. Talvez não uma garota de Calabessa. Talvez não a filha de um professor de medicina.
- Talvez nem amiga de Donna Mauer.
- Talvez nem me chamo Hayley.
- Quem diabos é você?
- Eu sou cada menininha que você observou, tocou, machucou, fodeu, matou! Ela vai descobrir, Jeff. Vai descobrir tudo. Coloque o nó. Coloque o nó e pule. Eu paro com tudo. Ela nunca vai descobrir. Vai achar que você estava triste. Um homem triste que ela nunca devia ter largado... Jeff? Coisas ruins. Coisas horríveis vão acontecer com você na prisão. Essa é a única saída. Você devia aproveitar essa chance para se matar, é o único jeito. É o único jeito, Jeff. Jeff.
- Eu não matei ela. Eu só observo. Eu só queria bater fotos... mas ele não deixou. Foi outro cara. Não fui eu, juro. Eu digo o nome dele. E espero que o encontre. Eu sei o nome dele.
- Eu sei o nome dele, Jeff. Sabe, é engraçado... Jeff? Aaron disse que foi você, antes de se matar.
- Não fui eu...
- Jeff?
- Eu não ligo.
- Jeff? Não se preocupe. Eu prometo. Eu cuido de tudo. Ou não.

Jeff & Hayley, "Menina Má.com" (2005).

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Que velho desagradável eu me tornei


- Eu me recordo de absolutamente tudo, jovem. É a minha maldição. É uma das maiores maldições infligidas ao homem: a memória. Eu fui seu maior amigo, e comigo ele se comportava como um porco. Não que Charlie fosse grosseiro. Mas ele fazia grosserias. Talvez não tenha sido seu amigo. Mas, se não fui, ninguém foi. TaIvez eu tenha sido a escada dele.
- O senhor ia falar sobre Rosebud.
- Você tem um bom charuto? Tem um médico jovem aqui que acha que vou parar de fumar.
- Não tenho, sinto muito.
- Eu mudei de assunto. Que velho desagradável eu me tornei! Você é repórter e quer saber minha opinião sobre Charlie Kane. Bem, creio que ele tinha alguma grandeza interior... mas ele a guardou para si. Ele nunca se entregava, nunca dava coisa alguma... apenas te deixava uma gorjeta. EIe tinha uma mente generosa. Nunca vi ninguém com tantas opiniões! Mas nunca acreditou em nada, exceto em Charlie Kane. Nunca teve uma convicção na vida, exceto Charlie Kane. Acho que morreu sem nenhuma. Deve ter sido desagradável. Claro, nós batemos as botas sem saber o que é a morte, mas sabemos o que estamos deixando, acreditamos em algo. Você não tem mesmo um charuto?
- Desculpe, Sr. Leland.
- Tudo bem.

Leland & Thompson, "Cidadão Kane" (1941).

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Bullying


- Nossa, isso é lindo! Parece que se deu bem na vida.
- Não é Faculdade de Medicina... mas nunca gostei de estudar mesmo. Não era muito boa. Estou surpresa que se lembre de mim.
- Eu me lembro de você. E lembro como a tratávamos naquela época. Você era tímida e eu, um idiota... Eu sinto muito. Só queria pedir desculpas.
- Do que está falando?
- Faz tanto tempo. Nem sei o que você poderia ter feito. Não vamos remexer o passado. Sherry, entre.
- O modo como a tratávamos estava errado. Nós estávamos errados.
- Pode ir. Tenho uma família agora. Já não sou aquela menina feia faz tempo.
- Você nunca foi feia.
- Por que veio aqui? Eram crianças. Sei como são as crianças. Não significava nada.
- Ouça, não quis vir aqui... Quer dizer... Sinto muito se a magoei. Não queria magoá-la de novo. Vou embora.
- David... obrigada.
- Tem certeza?
- Obrigado.

David & Winnie, "Linha Mortal" (1990).

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sermão

Tudo é mais complicado do que você pensa.
Você vê apenas um décimo do que é verdadeiro.
Há um milhão de pequenas cordas ligadas a cada escolha que você faz.
Você pode destruir sua vida, cada vez que você escolher.
Mas talvez você não saberá disso por 20 anos...
E você nunca jamais localizará a fonte disso.
E você tem apenas uma chance para desperdiçar.
Apenas tente e entenda o seu próprio divórcio.
E eles dizem que não existe destino, mas existe: é o que você cria.
E mesmo que o mundo continue por eras e eras,
você está aqui apenas por uma fração de uma fração de segundo.
A maior parte do seu tempo é gasto estando morto ou ainda não nascido.
Mas enquanto está vivo, você espera em vão, desperdiçando anos, por um telefonema ou uma carta ou um olhar de alguém ou alguma coisa que faça tudo ficar bem.
E isso nunca vem, ou parece vir mas não vem realmente.
Então você passa seu tempo com vago arrependimento ou com uma vaga esperança que alguma coisa boa virá adiante.
Algo para fazer você se sentir conectado.
Algo para fazer você se sentir inteiro.
Algo para fazer você se sentir amado.
E a verdade é que eu sinto tanta raiva!
E a verdade é que eu sinto uma puta tristeza.
E a verdade é que eu estou muito amargurado há muito tempo e há muito tempo eu tenho fingido que estou bem, apenas para seguir adiante, apenas para não sei o quê, talvez porque ninguém queira ouvir sobre meu sofrimento, porque eles têm os seus próprios, que é muito grande permitir que eles ouçam ou liguem para o meu.
Então foda-se todo mundo.
Amém.

O Pastor, "Sinédoque, Nova Iorque" (2008).